Por que a maioria das linguagens de programação usa inglês?

Se você decidiu entrar para o mundo da tecnologia recentemente, ou mesmo se já é um entusiasta curioso, certamente notou um padrão onipresente: o inglês domina o código. Ao ter o primeiro contato com linguagens de programação, seja Python, JavaScript, Java ou C#, você se depara com comandos como if, while, print, function e return.

Para um brasileiro, cuja a principal linguagem é o português, isso pode parecer uma barreira inicial. Afinal, por que precisamos aprender uma segunda língua apenas para dizer ao computador o que ele deve fazer? Por que não programamos usando “se”, “enquanto” ou “imprimir”?

A resposta para essa hegemonia linguística não é tão simples. Ela traz uma mistura fascinante de geopolítica histórica, limitações técnicas do começo da computação e a necessidade moderna de uma padronização global. Neste artigo, vamos explorar a fundo por que o inglês se tornou a “língua oficial” da tecnologia e como isso impacta o mercado de desenvolvimento de software hoje.

A origem histórica das linguagens de programação

Para entender o presente, precisamos olhar para o passado, mais especificamente para o período entre o pós-Segunda Guerra Mundial e o início da Guerra Fria. Durante as décadas de 1950 e 1960 o desenvolvimento da computação moderna acelerou drasticamente, impulsionado principalmente por investimentos pesados do governo dos Estados Unidos e do Reino Unido.

As primeiras linguagens de programação de alto nível, isto é,  aquelas que se assemelham mais à linguagem humana do que ao código binário de zeros e uns, nasceram nesses países.

  • FORTRAN (1957): Criada pela IBM nos EUA, focada em cálculos científicos.
  • COBOL (1959): Desenvolvida com ajuda do Departamento de Defesa dos EUA para processamento de dados comerciais.

Como os primeiros programadores que escreveram os compiladores e definiram a sintaxe dessas linguagens eram falantes nativos de inglês, era natural que utilizassem seu próprio vocabulário para os comandos. Se a computação moderna tivesse nascido na França ou na Rússia, hoje provavelmente estaríamos escrevendo códigos com palavras como si (se) ou esli (se).

Uma vez estabelecidas essas bases, as linguagens subsequentes (como C, criada nos anos 70) herdaram essa estrutura para manter a familiaridade, criando um “efeito bola de neve” que consolidou o inglês como o padrão da indústria.

O problema técnico: A Tabela ASCII e a falta de acentos

Além do contexto histórico, existe um motivo técnico crucial que intensificou o uso do inglês nas linguagens de programação por muito tempo: a codificação de caracteres.

Nos primórdios da computação, a memória era cara e limitada. Para padronizar como os computadores representam letras e números, foi criado o padrão ASCII (American Standard Code for Information Interchange), porém, o problema era que o ASCII original usava apenas 7 bits, permitindo representar apenas 128 caracteres.

Isso era suficiente para o alfabeto inglês (que não tem acentos), números e alguns símbolos de pontuação. No entanto, o ASCII não suportava caracteres essenciais para outros idiomas, como:

  • Acentos (á, é, ã, õ);
  • Cedilha (ç);
  • Letras de outros alfabetos (como o cirílico russo, o grego ou os ideogramas asiáticos).

Se um programador brasileiro tentasse criar uma linguagem nos anos 80 usando comandos como função ou início, o computador provavelmente retornaria um erro, pois não saberia interpretar o ç ou o í. Embora hoje tenhamos o padrão Unicode, que aceita até emojis, o legado do ASCII fez com que a sintaxe base das linguagens de programação permanecesse fiel ao alfabeto inglês simples para garantir estabilidade e compatibilidade universal.

A Padronização Global e o Open Source

Imagine um cenário onde cada país programasse em sua própria língua nativa. Um desenvolvedor brasileiro escreveria em português, um argentino em espanhol e um alemão em alemão. Embora pareça inclusivo, isso criaria uma Torre de Babel digital desastrosa.

O mundo do desenvolvimento de software depende profundamente da colaboração. Hoje, o ecossistema de tecnologia é movido por projetos Open Source (código aberto). O inglês atua como um elo de conexão que permite que:

  1. Um programador na Índia utilize uma biblioteca criada no Brasil.
  2. Um desenvolvedor na Alemanha corrija um bug em um sistema criado nos Estados Unidos.
  3. A documentação de ferramentas globais (como React, Docker ou Kubernetes) seja legível por todos.

Se as linguagens de programação fossem fragmentadas por idioma, a internet como conhecemos não existiria, pois a troca de conhecimento seria lenta e restrita a fronteiras geográficas. O inglês na programação não é sobre supremacia cultural, mas sobre eficiência operacional e colaboração em escala global.

Existem linguagens de programação em outros idiomas?

Sim, elas existem! Elas são chamadas de linguagens não baseadas em inglês (non-English-based programming languages). Um exemplo clássico no Brasil é o Portugol (usado no Visualg), muito comum em cursos técnicos e universidades para ensinar lógica de programação.

No Portugol, você escreve comandos como:

Plaintext
escreva("Olá, Mundo")
leia(variavel)
se (x > 10) entao ...

Outros países também possuem as suas versões. Existe o “Lexico” em espanhol, o “Himag” em chinês e até linguagens conceituais baseadas inteiramente em emojis.

No entanto, essas linguagens são quase exclusivamente voltadas para o aprendizado. Elas servem para que o aluno entenda a lógica (o algoritmo) sem se preocupar com a barreira do idioma estrangeiro no início. Porém, para o mercado de trabalho profissional, o uso dessas linguagens é inexistente, pois elas não possuem o suporte, a performance e as bibliotecas necessárias para criar softwares complexos.

O impacto no aprendizado: Preciso ser fluente em inglês?

Muitos iniciantes travam porque acham que precisam ser fluentes em inglês para começar a codificar. A boa notícia é que isso não é verdade.

Aprender a sintaxe de linguagens de programação é diferente de aprender a falar inglês. O vocabulário reservado de uma linguagem (as palavras-chave) é pequeno, geralmente entre 30 a 50 palavras. Você aprende que if significa “se” e print significa “imprimir/mostrar”, e usa isso como um símbolo lógico, não como uma frase gramatical.

Curiosamente, o processo inverso acontece com frequência: aprender programação acaba ajudando muitas pessoas a desenvolverem o chamado Inglês Técnico. De tanto ler documentações, mensagens de erro e tutoriais, o programador acaba absorvendo o idioma passivamente.

O futuro: A Inteligência Artificial mudará isso?

Com o avanço da Inteligência Artificial e ferramentas como ChatGPT, GitHub Copilot e o movimento No-Code (sem código), a barreira do idioma está diminuindo. Hoje, você pode descrever um problema em português para uma IA e ela gerará o código em Python ou JavaScript (em inglês) para você.

Contudo, mesmo que a IA escreva o código, o programador ainda precisa ler, revisar e dar manutenção no que foi gerado. E, como o código gerado será em inglês, o conhecimento básico continua sendo indispensável.

Conclusão

O domínio do inglês nas linguagens de programação é o resultado de uma evolução histórica e de necessidades técnicas que permitiram a globalização da tecnologia. Longe de ser apenas uma barreira, essa padronização é o que permite que a comunidade de desenvolvedores seja a maior rede de colaboração profissional do mundo.

Para quem está começando, o conselho é: não tenha medo. O inglês do código é lógico, repetitivo e acessível. Encare-o como mais uma ferramenta no seu cinto de utilidades, tão importante quanto a lógica e a matemática.

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